SÃO PAULO — Assim que saiu da consulta com a endocrinologista, a enfermeira Carolina Salema, de 36 anos, digitou uma mensagem no celular à médica dizendo que era a primeira vez que não se sentia julgada no consultório.

Por conta de seu peso, Carolina normalmente era responsabilizada por especialistas diante dos números exibidos na balança, e pior, ouvia que era obrigada a dar “exemplo” por ser uma profissional da saúde. Mas, desta vez, ouviu sugestões mais amigáveis, como melhorar hábitos diários e ter uma alimentação melhor, pensando na saúde, em vez da ordem taxativa “emagreça!”

— Qualquer queixa que eu tivesse, mesmo que fosse uma dor de estômago, eu ouvia que precisava emagrecer. Muitas vezes isso é dito sem olhar na cara do paciente, sem tentar entender as razões da obesidade — afirma Carolina.

A abordagem mais cooperativa, festejada por ela, passou a ser adotada em consultórios médicos das mais diversas especialidades, nos últimos anos. Trata-se de um reflexo do que se vê nos desfiles de moda e nas redes sociais, onde a aceitação de diversos tipos de corpos tornou-se um assunto de primeira hora e alta relevância.

Os especialistas, porém, não se tornaram ávidos defensores do descontrole na balança. Em unanimidade, eles mantêm o posicionamento de que há uma série de fatores de risco à saúde atrelados à obesidade e ao sobrepeso, mas garantem que a conversa com os pacientes deve ficar na ala da saúde e do bem-estar, e nunca descambar para orientações sobre visual e estética.

— Temos que combater a gordofobia, que é inferiorizar a pessoa com obesidade. O problema é uma questão de saúde — explica a endocrinologista do Hospital Vila Nova Star, Evelin Cavalcante.

Os médicos dizem lutar contra um entendimento ultrapassado de que a obesidade seria fruto de preguiça, descuido. O excesso de peso pode ser causado por uma série de fatores hormonais, comportamentais e sociais. O presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica, Fabio Viegas, explica que compreender a doença de maneira mais ampla permite aliviar a pressão sobre o paciente, que não pode controlar absolutamente todos os fatores que envolvem seu aumento de peso.

Nesse sentido, saem de cena as tradicionais cobranças do tipo meta de quilos para se perder até a próxima consulta. E entram orientações mais brandas e focadas na melhora da saúde global, a exemplo de inserção da atividade física, quando o paciente não faz, ou ajustes na alimentação, além de rastrear fatores que possam estar comprometendo a saúde como um todo, como crises de ansiedade, problemas para dormir ou desordens metabólicas.

Termo ‘obesidade mórbida’ cai em desuso

No consultório do endocrinologista especializado em obesidade, Paulo Rosenbaum, do Hospital Israelita Albert Einstein, a conversa sobre o peso só é iniciada diante da autorização do paciente. Antes de fazer qualquer orientação, o médico pergunta se a pessoa está interessada em falar sobre o tema.

— O médico tenta ser parceiro do paciente. É alguém que vai colaborar com o tratamento, ajudar, mas levando em conta as necessidades e dificuldades de quem é atendido. Antigamente o médico era mais duro, impositivo. Hoje a tendência, com o acesso à informação, no Google, é que o médico fique como um tutor, orientador — afirma Rosenbaum.

Nesse cenário, o termo obesidade mórbida, por exemplo, está caindo em desuso. A categorização mais adequada, dizem os especialistas, é por graus de 1 a 3. Em alguns consultórios também se evita o termo “gordo”, pois poderia incomodar parte dos pacientes.

Não se trata de uma discussão secundária no âmbito da saúde. De acordo com dados de 2019 da Vigilância de Fatores de Risco para doenças crônicas não transmissíveis do Ministério da Saúde, 55% dos brasileiros estavam com excesso de peso e 20% com obesidade.

O nutricionista Antonio Lancha Jr, da Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição, explica que as altas nas taxas de pessoas com excesso de peso é fruto também da organização da sociedade moderna que, entre outras questões, levou a população a ter menos esforços físicos na vida pessoal e profissional.

Grupo de médicos ‘não gordofóbicos’

Diante do crescimento de relatos de intolerância em consultórios médicos, as psicólogas de São Paulo Lais Sellmer e Gabi Menezes criaram, em 2019, o grupo Saúde sem Gordofobia, que reúne o contato de cerca de 750 profissionais de diversas áreas que classificam-se como “não gordofóbicos”.

Antes de integrar o grupo, esses especialistas da área da saúde devem ser indicados por pacientes ou, quando candidatam-se, têm as redes sociais averiguadas para checar se não há por ali indicativos de dietas milagrosas, por exemplo.

O grupo desenvolveu, recentemente, um curso voltado a profissionais da saúde em que orienta a abordagem correta aos pacientes, para não reforçar estigmas que acabam distanciando pessoas acima do peso de consultas de rotina, por exemplo.

— O médico não pode vir com prejulgamento (sobre o peso), ele precisa saber qual o objetivo da consulta, saber qual o estilo de vida do paciente e pedir os exames. Só depois falar sobre os tratamentos recomendados. E muitas pessoas começaram a não aceitar só a dica de emagrecimento como tratamento — diz Lais.

Embora haja avanços, o comportamento nos hospitais, dizem alguns especialistas, ainda precisa de mudanças mais profundas para que os pacientes acima do peso se sintam efetivamente aceitos e acolhidos.

—  O estigma das pessoas com obesidade é uma realidade. Agora temos um pouco mais de consciência (do impacto da gordofobia nos consultórios médicos) , mas ainda acontece. O objetivo tem que ser, sempre, ganhar saúde, e não mudar o formato do corpo — diz Cintia Cercato, endocrinologista e presidente da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso).

Fonte da publicação: O Globo
https://oglobo.globo.com/saude/medicina/como-obesidade-vem-deixando-de-ser-encarada-pela-medicina-como-fruto-de-preguica-ou-somente-comportamental-25144883